O Teletrabalho e a Paralisação dos Caminhoneiros


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Você deve estar se perguntando nesse exato momento o que uma coisa tem a ver com a outra. Pois bem, essa dúvida é o que justamente pretendo elucidar até o final deste artigo.

Primeiramente, cabe ressaltar que, apesar de ter ficado muito empolgado quando me veio a epifania para escrever esse artigo, confesso que também fiquei receoso de não parecer oportunista em meio ao desespero da população, refém do impasse entre a categoria dos caminhoneiros e governo. Felizmente, ao tempo em que finalmente escrevo este texto, as partes parecem ter fechado uma “trégua”.

Outro ponto que merece ser destacado é que não é minha intenção fazer juízo de valor sobre a paralisação da categoria, ou seja, expressar se concordo, se deixo de concordar, “ou não”, como diria Caetano Veloso. Para os fins desse artigo, a recente paralisação é “apenas” o evento de risco usado como exemplo para comprovar a tese defendida aqui.

Feitas as devidas considerações, vamos ao que interessa…

Estou há cerca de um mês trabalhando com a minha equipe no projeto de expansão do teletrabalho. E, adivinha o que elencamos como uma das vantagens desta modalidade? “ Servir como Plano de Contingência em caso de eventos que impeçam o desenvolvimento normal das atividades por parte dos servidores nas dependências do Órgão ”. Juro!

Neste ponto da conversa, apostaria que você já captou a relação entre as expressões do título. Porém, antes de desenvolver o clímax, permita-me dar mais contexto.

Se você é como eu, entusiasta do teletrabalho, principalmente no Setor Público, com certeza já deve ter escutado todo sorte de “piadinhas”: “Teleférias”, “Vale-Speed” (de Speed-ente), “Pijama Work”, dentre outros. Assim, não é nada fácil manter o interlocutor focado nas vantagens desse tipo (moderno) de relação de trabalho, ainda mais quando tomamos conhecimento de notícias em que servidores foram pegos abusando dessa facilidade. Felizmente, a minoria!

Entidades que incentivam o teletrabalho ainda hoje são rapidamente relacionadas à falta de controle, a estarem privilegiando (indevidamente) seus servidores, a serem seguidoras de modinhas, etc. Bom, como um colega meu sempre diz: “Se inovar já é difícil, inovar na Administração Pública é praticamente ilegal”.

Agora, vejam o que aconteceu nesse evento da paralisação dos caminhoneiros. Com o desabastecimento, muitas pessoas não tinham como se deslocar com seu carro para a sede do trabalho. Até mesmo os transportes coletivos começaram a parar também por falta de combustível. Como se já não bastassem isso tudo, a adesão dos motociclistas ao movimento paralisou também as vias internas das cidades.

Bom, não é preciso ser nenhum gênio para perceber que em um país cujo modal de transporte é quase que totalmente baseado em estradas, esse tipo de situação leva rapidamente ao colapso todo o ecossistema. O que se viu a partir de então foi escolas cancelando aulas, empresas sem saber o que fazer, e entidades públicas declarando ponto facultativos, todos movidos pela quase impossibilidade de deslocamento e do risco elevado de segurança pessoal quanto à uma eventual tentativa.

Aí vem a famosa pergunta: “E se eu não precisasse me deslocar”? Ora, nosso modal de transporte pode até ser baseado no rodoviário, mas de outro lado o nosso modal de processo de trabalho não precisa ficar preso a esse paradigma. Dessa forma, quem já tinha estruturada sua versão de teletrabalho antes da crise acabou lançando mão naturalmente desse recurso visando a conservar capacidade produtiva dos colaboradores, e assim evitar o prejuízo da mão-de-obra ociosa, ainda que por motivo de força maior.

Ironicamente, aquele modelo de processo de trabalho remoto extremamente arriscado do início do texto passa então a ser considerada a principal medida de contingência para manutenção da produção diante de eventos catastróficos. Traduzindo, o teletrabalho passa de proposta inconsequente a Plano B oficial da organização para esses casos!

Mas será que estamos fadados a depender de eventos catastróficos para enxergar as vantagens do Teletrabalho? Estou convicto de que não! Se partimos do princípio que o Teletrabalho é baseado em entregas, como é o nosso caso, posso citar imediatamente os seguintes ganhos: mudança do paradigma do monitoramento da presença física para o de foco no resultado, redução da necessidade de espaço físico das instalações corporativas (provável economia de aluguel e de seus derivados), etc. Fora isso, o teletrabalho pode ser usado como diferencial competitivo que auxilia sobremaneira na retenção de talentos e, por consequência, na diminuição da rotatividade entre setores e entre entidades.

Em seguida, mas não menos importante, vamos avaliar o teletrabalho do ponto de vista do servidor. Acordemos que a redução de despesas pode ser considerada um aumento de salário sem tributação, ou mesmo com efeito tributário inverso. Por exemplo, a dispensa da ida ao trabalho em um mês, em meu contexto (usuário de metrô), materializa diretamente uma redução de pelo menos R$ 220,00 líquidos; isso sem contar a economia de tempo de deslocamento somada à diminuição da exposição a estresse nos horários de pico.

Por fim, do ponto de vista da Sociedade em geral: são menos carros nas ruas, menos gases nocivos na atmosfera, menos ausências médicas, problemas físicos ou mentais derivados da rotina-padrão.

Concluindo, espero que aproveitemos toda essa situação, e nosso empenho, para fazer desse limão uma limonada. Pensemos: seria então o teletrabalho um instrumento de gestão a ser fomentado, de modo a diminuirmos a dependência em relação os deslocamentos rodoviários? Sim, definitivamente! A prova está aí!

E você? O que acha do Teletrabalho como alternativa aos modus operandi atual? Deixe, por favor, a sua opinião no campo de comentários abaixo.

Boa Gestão!

WC